terça-feira, 25 de abril de 2017

O Espiritismo é Ciência? Última parte

Metodologia: Controle universal do ensino dos Espíritos
Chegou, por fim, a vez da metodologia. Para falar sobre a metodologia criada por Kardec devemos entender um pouco mais sobre as características do mundo dos Espíritos.
Assim como há a diversidade humana, existe também a diversidade dos Espíritos
A diversidade dos Espíritos é um dos princípios elementares da Doutrina Espírita, pois é resultado das observações dos fatos, por meio dos fenômenos espíritas. Este princípio traz consequências diretas à ciência espírita, pois Kardec teve que se munir de critérios e métodos para dividir e classificar os Espíritos, e consequentemente as suas comunicações. Observem abaixo o que ele escreve a esse respeito:
 “Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.”1
A conclusão de Kardec de que a opinião dos Espíritos tem o valor de uma opinião pessoal é fundamental para compreender muitos pontos da Doutrina espírita, pois se um dos seus propósitos é revelar aos homens as verdades espirituais, como obtê-las diante de um cenário tão insólito?
A cobrança da mediunidade é um obstáculo ao Espiritismo
Kardec teve que se precaver de muitos problemas inerentes às manifestações espíritas, pois sabia que para conseguir alcançar as comunicações do mais alto conhecimento e sabedoria deveria se desvencilhar do charlatanismo, do embuste e da comercialização da mediunidade, práticas muito comuns a sua época e até os dias de hoje.
Mas isso não era suficiente. Mesmo as sessões espíritas cujos seus participantes: médiuns, esclarecedores e ouvintes fossem mulheres e homens de bem com as melhores das boas intenções, podem ser vítimas de espíritos mistificadores, que se passam por vultos dignos de respeito, apenas para ganhar a nossa confiança e plantar ideias equivocadas, controversas ou maliciosas com o intuito de criar a dúvida, a discórdia e a divisão.
Para se prevenir de todas as dificuldades inerentes à mediunidade, ele lançou as bases da ciência espírita, que se chama “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”2. Uma metodologia na qual vários Espíritos, em locais diferentes, com médiuns distintos, nos ensinam espontaneamente sobre as questões da mais alta gravidade para filosofia: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Ele pôde comparar os ensinos que possuíam coerência, lógica e concordância daqueles que não passavam de um equívoco, de uma opinião pessoal ou de uma ignorância.
Veja abaixo a relevância que Kardec dá a essa metodologia para a Doutrina Espírita:
Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. Pois que ela tem sua fonte de origem no ensino dos Espíritos, para que sucumbisse seria necessário que os Espíritos deixassem de existir. É também o que fará que prevaleça sobre todos os sistemas pessoais, cujas raízes não se encontram por toda parte, como com ela se dá. 3
Diante de um quadro histórico que nos permite afirmar que o Controle Universal nasceu e morreu com Kardec, ou seja, nenhum pesquisador espírita após o seu desenlace utilizou-se desta metodologia, é nossa responsabilidade compreender quais foram os motivos que levaram seus continuadores a terem esta postura. Os espíritas do séc. XXI que se preocupam com estas questões devem abrir o debate sobre as novas exigências que a epistemologia imprime sobre a ciência, para descobrirmos se o método criado por Kardec tornou-se obsoleto. Caso o controle Universal esteja caducado, devemos buscar novas soluções de metodologia para dar continuidade ao aprimoramento da ciência espírita. Este debate é longo e requer amadurecimento do movimento espírita para enfrentá-lo, porém, ele é necessário. Este tema será desenvolvido em artigos futuros, no momento oportuno. 
Chegamos ao final desta defesa. Esperamos sinceramente ter apresentado argumentos consistentes e relevantes a favor da ciência espírita, e o querido leitor, que teve a paciência de nos acompanhar até o final desta jornada, possa realmente ter se convencido deles. Esta abordagem nos permitirá visualizar a Doutrina de um ponto de vista muito mais amplo, e nos ajudará a avaliar com propriedade se os rumos que o Espiritismo tomou se distanciaram de sua raiz. Entretanto, com esta postura progressista que o próprio Kardec asseverou para os princípios Espíritas, temos a total liberdade de discordar dele e dos próprios Espíritos, desde que façamos com cautela e discernimento. Mas devemos ficar atentos também às distorções ocorridas e trabalhar para que eles voltem aos seus eixos. Por fim, compreender o pensamento de Kardec, acerca da ciência espírita, é fundamental para seguir em frente, e assim, darmos prosseguimento e aprimoramento ao extenso labor do Fundador do Espiritismo.         
Por João Viegas
         Referências bibliográficas 
1. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Autoridade da Doutrina Espírita, item II, Introdução.
3. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução à primeira edição publicada em janeiro de 1868.

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terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Espiritismo é Ciência? Parte VI

Caráter progressista da ciência espírita:
A Ciência progredi com as pesquisas. Com o Espiritismo não seria diferente
Devemos ter em mente que as explicações recebidas dos Espíritos por Kardec, acerca dos fenômenos, estavam de acordo com o grau de conhecimento dos homens daquela época, e, portanto, cabe a nós, enquanto adeptos do Espiritismo, dar continuidade a esse trabalho, agregando à teoria espírita novos elementos para torná-la atual e consistente. Com efeito, a ciência espírita foi criada por Kardec, e ele sabia que apesar do enorme trabalho realizado durante a revelação espírita, o progresso da própria ciência poderia mostrar pontos equivocados da Doutrina, uma vez que isso ocorre com todas as ciências, pois elas são resultado dos esforços de diversos pesquisadores ao longo do tempo. Com o Espiritismo não seria diferente. Segue abaixo as palavras dele que atestam a sua postura progressista:        
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”1
Allan Kardec, Fundador do Espiritismo  
Assim, “O Livro dos Médiuns” não é a última palavra em mediunidade. Longe disso, ele foi o primeiro esforço muito bem sucedido para compreender fenômenos que sempre acompanharam a humanidade desde sua tenra idade. Até a revelação espírita, estes fenômenos eram apenas tratados dentro do âmbito da fé religiosa e as pessoas envolvidas eram vítimas de muito preconceito, marginalizadas, perseguidas e mortas pela sociedade, em especial, pela religião. Curiosamente, são justamente nos livros ditos “sagrados” que encontramos diversos registros destes fenômenos. O Espiritismo veio a seu tempo para imprimir caráter científico a eles e afirmar que os médiuns não sofrem de nenhuma patologia catalogada pela ciência. São pessoas normais como outras quaisquer.
Outro aspecto relevante é a preocupação de Kardec em refutar teorias e sistemas que dão outras explicações aos fenômenos espíritas. O “Livro dos Médiuns” possui um capítulo dedicado a isso. Trata-se do capítulo IV da primeira parte que se chama “Dos Sistemas”. Evidentemente, trata-se de uma defesa de argumentos contra a Doutrina que circulavam à época da revelação. No entanto, no ano do desenlace de Kardec, o Espiritismo sofreu severo ataque de um filósofo alemão chamado Eduard von Hartmann2, que analisou os fenômenos espíritas e lançou a teoria anímica, descartando a espírita proposta pelo Espiritismo. Sumariamente, a teoria anímica consiste em atribuir ao próprio médium a origem de todas as comunicações. Mesmo estando inconsciente, ele seria o responsável pelos fenômenos sem nenhum tipo de intervenção inteligente extracorpórea. O interessante nessa questão é perceber que os Espíritos falaram abertamente a Kardec sobre o animismo, porém com outro nome: sonambulismo. Admitiram ser perfeitamente possível que “a alma do médium pode comunicar-se como a de qualquer outro...”3, sem prejuízo a teoria espírita.
Ernesto Bozzano, pesquisador Espírita
A defesa da teoria espírita veio com o alemão Alexandre Aksakof2 e com o cientista italiano Ernesto Bozzano2 que mostraram que Hartmann apresentou uma teoria que não resolvia todos os problemas do fenômeno. Faltava-lhe, portanto, abrangência.
Um dos desafios que a teoria espírita enfrenta atualmente está na estreita relação, do ponto de vista de seus sintomas, entre os fenômenos espíritas e os transtornos psicóticos, como por exemplo, a esquizofrenia. Esse debate suscita alguns questionamentos, tais como: como distinguir o que é influência espiritual daquilo que é patológico? Será que todo transtorno psicótico sofre de influência espiritual? Será que a recíproca é verdadeira? São perguntas que devem ser pesquisadas para promover o progresso necessário a teoria espírita, tornando-a atual e consistente. Atualmente, existem pesquisadores na área de psiquiatria que estudam a fronteira entre as doenças psíquicas e mediunidade. Ressaltamos, entre eles, o Prof. Dr. Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES). O NUPES faz parte do programa de pós-graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Alexander Moreira-Almeida, psiquiatra
A ciência, finalmente, através de iniciativas que transcendem a teoria reducionista materialista, começa a deslumbrar que nem todo fenômeno psíquico pode ser facilmente explicado pelas leis conhecidas da matéria. Que a hipótese espiritualista não pode mais ser renegada ao âmbito da religião, pois é uma hipótese viável, que propõe soluções que as leis da matéria não têm competência pra resolver. Eis uma excelente oportunidade que a ciência tem nas mãos de prestar um belíssimo serviço à saúde pública, recomendando tratamentos adequados e eficazes às pessoas que passam por perturbações de ordem espiritual, evitando diagnósticos equivocados, com fins de possibilitar o equilíbrio físico e espiritual daqueles que procuram seus serviços.
Por João Viegas
Referências
1)   KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 55.
2)   MIRANDA, Hermínio C., Diversidade dos Carismas. 8ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Lachâtre, 2013. 1 Teoria e a Experiência, Cap III Animismo.
3)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Influência do Espírito pessoal do médium, Capítulo XIX – Do Papel do médium nas Comunicações Espíritas, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.

sábado, 13 de agosto de 2016

O Espiritismo é Ciência? Parte V

Papel dos espíritas perante o Espiritismo
Fenômeno mediúnico sendo observado por pesquisadores
Muitos espíritas acreditam que a filosofia espírita é mérito exclusivo dos Espíritos, cabendo a Kardec apenas sistematizar e organizar as comunicações provenientes do plano espiritual. Este comportamento poderia sugerir aos adeptos do Espiritismo uma postura passiva e silenciosa diante das comunicações, sem a necessidade de investigação, análise e ponderações, uma vez que os Espíritos nos esclarecem com muita propriedade sobre os diversos temas que nos afligem. Nada poderia estar mais longe da verdade. Esse pensamento pode estar presente nas mentes dos espíritas em virtude da postura humilde de Kardec registrada nos prolegômenos de “O Livro dos Espíritos”. Lá ele afirma:
“Este livro é o repositório de seus ensinos (dos Espíritos). Foi escrito por ordem e mediante ditado de Espíritos superiores, para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema. Nada contém que não seja a expressão do pensamento deles e que não tenha sido por eles examinado. Só a ordem e a distribuição metódica das matérias, assim como as notas e a forma de algumas partes da redação constituem obra daquele que recebeu a missão de os publicar.”1
É exato afirmar que a filosofia espírita provém dos Espíritos, no sentido de que ela não saiu da cabeça de um homem, como ocorre com as ciências da matéria. Mas não é exato afirmar que a única missão de Kardec era de publicar seus ensinos. Encontramos no próprio “O Livro dos Espíritos” as marcas de um genuíno pesquisador. Como ler “O Livro dos Espíritos” pulando a sua introdução? Não é lá como começamos a entender como a Doutrina começou a ser revelada? Não é lá que está registrado os primeiros fenômenos estudados por Kardec? Tudo começou com as mesas girantes, depois a cesta com o lápis, a prancheta e por fim a mão do médium. O que dizer do seu artigo “Ensaio Teórico das Sensações nos Espíritos”? Mesmo possuindo limitado conhecimento do funcionamento do cérebro, ele consegue responder com maestria como é possível os Espíritos terem as mesmas sensações e percepções humanas, como a dor, por exemplo, se são destituídos de corpo físico? Como explicar as diversas reclamações, de que foi testemunha, de frio e calor dos Espíritos?
Vou dar um exemplo para tornar clara a função daquele que investiga os fenômenos espíritas. É o próprio Kardec que explica:
 “Passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular, de que seguramente ninguém houvera suspeitado: o de haver Espíritos que se não consideram mortos. Pois bem, os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram dizer antecipadamente: “Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos, costumes e instintos.” Provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo-se visto Espíritos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando ainda serem deste mundo, julgando-se aplicados às suas ocupações ordinárias, deduziu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos demonstrou que o caso não era excepcional, que constituía uma das fases da vida espírita; pode-se então estudar todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecer que tal situação é sobretudo própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e peculiar a certos gêneros de morte; que é temporária, podendo, todavia, durar semanas, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. O mesmo se deu com relação a todos os outros princípios da doutrina.”2
Apesar de muitos princípios terem sido resultados das observações dos fenômenos, existem outros promulgados pelos Espíritos que Kardec não teve como demonstrá-los ou evidenciá-los. Esse é o caso da reencarnação. Na questão nº 171 de “O Livro dos Espíritos” ele questiona: Em que se funda o dogma da reencarnação?3 Os Espíritos, por sua vez, respondem: “Na justiça de Deus e na revelação...”3. Ou seja, é um princípio que foi agregado a filosofia espírita, resultado dos ensinos dos Espíritos, e não da observação dos fatos.    
No entanto, ele utilizou de outros critérios para se certificar da veracidade das informações provenientes dos Espíritos como será esclarecido adiante.
Pesquisadores analisam a atividade cerebral de médiuns em transe 
Por sua vez, “O Livro dos Médiuns” é uma obra na qual Kardec expõe toda sua perspicácia na análise das comunicações. Esta obra possui um capítulo especial de mensagens apócrifas4 atribuídas a espíritos de alta envergadura moral, como Jesus de Nazaré por exemplo. Ele fez este registro para que os espíritas saibam que ninguém está livre de receber comunicações mistificadoras, e que cabe aos espíritas discernir o falso do verdadeiro. É intrigante notar que esta recomendação seja proveniente dos próprios Espíritos, ou seja, são os próprios Espíritos que nos dizem que devemos analisar as mensagens oriundas do além, conforme segue a recomendação abaixo de Erasto:
“...fazei-a (Erasto refere-se às comunicações espíritas) passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”5
Não há nesta argumentação nenhum propósito de desmerecer o trabalho extraordinário daqueles Espíritos que foram incumbidos de realizar a revelação espírita (São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, etc..)1, pois sem o concurso deles o Espiritismo careceria de seu caráter verdadeiro, ou seja, seria uma expressão equivocada das leis Divinas espirituais. Em contrapartida, uma postura criteriosa, cautelosa, investigativa, questionadora e abnegada por parte de Kardec garantiu, com boa dose de certeza, que as comunicações recebidas eram, de fato, provenientes de Espíritos superiores. O que estamos tentando esclarecer para o querido leitor é que o caráter científico da Doutrina é o que garante a origem divina da revelação espírita, sendo a ciência espírita de total responsabilidade dos espíritas, e não dos Espíritos. Portanto, a nossa postura diante dos fenômenos é que vai caracterizar o Espiritismo como ciência, a exemplo de Kardec. 
O Fundador do Espiritismo discorre em seu brilhante artigo intitulado “Caráter da Revelação Espírita”, contido em sua obra “A Gênese” o papel dos homens perante os fenômenos. Ele considera que a revelação espírita tem duplo caráter: divino e científico. Esta passagem é tão esclarecedora que dispensa qualquer comentário.
“Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira, porque foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca de coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.6
Por João Viegas

Referências
1)  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Prolegômenos.
2) KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 15.
3)  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira; Justiça da Reencarnação; Cap IV – Da Pluralidade das Existências, Parte Segunda – Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos.
4)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Comunicações apócrifas, Capítulo XXXI – Dissertações Espíritas, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
5)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XX – Da Influência Moral do Médium, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
6)   KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 14.

terça-feira, 26 de julho de 2016

"Allan Kardec: Fundador do Espiritismo" publicado no Jornal Ciência Espírita

Saudações amigos de ideal espírita!
É com grata satisfação que informo que o artigo “Allan Kardec: Fundador do Espiritismo” de minha autoria foi publicado no Jornal Ciência Espírita. Aqueles que desejarem acessar a página e postar algum comentário, estejam à vontade. Segue o link abaixo:


sábado, 9 de julho de 2016

O Espiritismo é Ciência? Parte IV

Teoria ou paradigma: O Livro dos Médiuns
Frontispício de "O Livro dos Médiuns"
A teoria espírita pode ser encontrada em “O Livro dos Médiuns”, pois contém o “Ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações...”1. Kardec considera um mérito da Doutrina o fato do próprio fenômeno ter se explicado, através das comunicações que diversos Espíritos prestaram, uma vez que elas não saíram da cabeça de ninguém e não ficou sujeita aos caprichos e sistemas humanos. Essas são as palavras do fundador do Espiritismo acerca desse assunto:
“(O Espiritismo) não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.”2
Francis Bacon, filósofo inglês do séc. XVII
O posicionamento de Kardec deve ser contextualizado dentro do momento histórico da ciência do século XIX. Os pesquisadores de sua época utilizavam-se do método indutivo e dedutivo para formular suas teses, ou seja, a teoria produzida era resultado das observações dos fatos, assim como fez Galileu ao observar o céu com uma luneta e daí concluindo que era a Terra que girava em torno do Sol, e não ao contrário, como se pensava antes. Não é por acaso que ele é considerado pai da ciência moderna. Com efeito, essa maneira de se fazer ciência foi inicialmente apresentada pelo filósofo do séc. XVII Francis Bacon8, tendo no positivismo do sociólogo Auguste Comte (séc. XIX) uma influência relevante. Essas filosofias eram muito bem aceitas pela comunidade científica daquela época e o Fundador do Espiritismo teve acesso a todas essas informações. Era natural, portanto, que tivesse a mesma postura dos pesquisadores do seu tempo.
No entanto, o conceito de produção de teorias pelo método indutivo e/ou dedutivo foi se tornando cada vez menos usual pelos cientistas. O princípio aceito atualmente é a produção inicial de teorias ou paradigmas que consigam explicar satisfatoriamente um conjunto de fenômenos observados, tendo o experimento um papel secundário3. Porém, a mudança na maneira de se fazer ciência com o progresso da epistemologia não tira o mérito do conhecimento produzido até então. Seria legítimo desqualificar a teoria da seleção natural, proposta por Darwin4, só porque seus resultados foram baseados em observações da natureza? O que dizer
Michael Faraday, cientista do séc XIX 
das descobertas extraordinárias de Faraday5, empirista por excelência? O princípio de funcionamento das máquinas elétricas, presente desde a geração de energia até o consumidor final, foi descoberto por ele por meio de seus experimentos. Devemos, portanto, ficar às escuras até a ciência demonstrar esses princípios através de métodos epistemológicos contemporâneos? Por fim, vamos deixar de usar antibióticos só porque a penicilina foi descoberta ao acaso durante uma experiência de Fleming6? É fácil ver que desconsiderar essas descobertas seria uma postura descabida dos cientistas de hoje. Conclui-se, portanto, que assim como a ciência progrediu na forma de produzir conhecimento, cabe aos adeptos do Espiritismo do séc. XXI procurar adequar a ciência espírita a essas novas exigências.  
O mérito da Doutrina de que fala Kardec está no fato de que havia um sentimento extremamente cético perante os fenômenos, pois os homens daquela época (e até hoje) procuravam explicá-los dentro das propriedades e leis da matéria, descartando qualquer possibilidade de intervenção dos Espíritos. O próprio Kardec teve uma postura cética quando começou a observá-los, pois afirmou em “O que é o Espiritismo?” que levou mais de um ano para se convencer da teoria espírita, demostrando uma postura cautelosa perante os fenômenos. Em contrapartida, muitos de sua época queriam se convencer, ou confirmar suas posições céticas, assistindo a uma única sessão espírita. Kardec sabia que o resultado desta postura imediatista seria desastroso, pois os fenômenos espíritas carecem de controle por parte dos homens.
Contrariando a esse ceticismo, os Espíritos não paravam de se comunicar, dando provas patentes de sua existência. Por fim, para se tornar adepto do Espiritismo, ou seja, para compreender e se convencer da teoria espírita, faz-se necessário “imprimir a seus estudos a continuidade, a regularidade e o recolhimento indispensáveis”7, como qualquer outra ciência exige de seus estudantes. Nas palavras de Kardec: “Quem quiser com eles (os Espíritos) instruir-se tem que com eles fazer um curso”.7
No entanto, do ponto de vista da ciência contemporânea, não há diferença de onde provém a teoria que explica o fenômeno, desde que ela seja abrangente, satisfatória e coerente. Esses são os elementos encontrados nas palavras dos Espíritos. Kardec, por sua vez, realça esses elementos em seus comentários.
Por João Viegas
Referências
1)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Frontispício.
2)   KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 14.
3)   Xavier, Ademir. Jornal de Estudos Espíritas Vol. I 2013, seção 2: Artigos Regulares “Reflexões Sobre a Ciência Espírita”.
4)   LOPES, Sônia. Bio: volume único. 1ª ed. São Paulo, 2004. Editora Saraiva. Ítem 4 - A Teoria da seleção natural, Cap. 36, Evolução - Teorias e evidências.
5) KOSOW, Irving L. Máquinas Elétricas e Transformadores. 10ª ed. São Paulo, 1989. Editora Globo. Capítulo 1.  
7)   KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução. Item VIII.

8)   CHALMERS, A. F.. O Que é a Ciência Afinal? Tradução de Raul Filker. 1993:  Editora Brasiliense, Introdução.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Espiritismo é Ciência? Parte III

Escopo: fenômenos espíritas
Sessão Mediúnica em "O Filme dos Espíritos" (2011)
Dando continuidade a correlação entre a epistemologia e o Espiritismo, tem-se nos fenômenos espíritas o escopo da ciência espírita. Assim, todos os fenômenos relacionados com as comunicações entre o mundo espiritual e material, ou seja, entre nós e os Espíritos devem ser estudados. Logo, a mediunidade deve ser pesquisada continuamente pela Doutrina. Com isso, os fenômenos de efeitos físicos, como das mesas girantes, ruídos e movimento de objetos devem ser investigados, assim como os fenômenos espíritas inteligentes pela fala (psicofonia), escrita (psicografia) e audição são outros exemplos que estão dentro do escopo da ciência espírita.
O escopo permite ao espírita ter discernimento na análise dos fenômenos. É muito comum sermos questionados sobre os sonhos, por exemplo. E muita das vezes o inquiridor deseja uma interpretação espiritual para eles, algo que faça sentido em sua vida. No entanto, apesar dos sonhos poderem realmente revelar alguma experiência da alma no plano espiritual e até um pressentimento do futuro, esse é um campo aberto a muitas conjecturas, além de saber que a psicologia possui um acervo teórico consistente sobre este tema, algo que não deve ser ignorado.
Para valer a pena investigar determinados fenômenos, é preciso ter alguns cuidados importantes: o primeiro deles é descartar qualquer possibilidade de fraude, charlatanismo e embuste. Feito isso, deve ser avaliado se não existe alguma explicação, na própria ciência, para tal fato. Por fim, os fenômenos espíritas devem ser patenteados pelo seu caráter inteligente e pela possibilidade de comunicação conosco. Portanto, não se deve investigar, dentro do escopo da ciência espírita, a primeira pancada que se ouve em nossa residência sem motivo aparente.
Vamos dar um exemplo relativamente recente de um fenômeno que tem todas as características de ter causas espirituais:
Numa cidade do interior do Rio Grande do Sul,
uma família foi atormentada com fenômenos muito estranhos
Conforme reportagem da rede globo1, através do portal G1 na internet, ocorreu um caso muito singular num município do interior do Estado do Rio Grande do Sul. Uma família foi atormentada com pedras caindo sobre o telhado de sua casa. Os eventos foram tão apavorantes, que o pai da família resolveu demoli-la.
Vários policiais que foram chamados para atender as ocorrências e vizinhos testemunharam tais fatos. Inclusive, muitas dessas pedras foram encontradas no telhado da casa. É interessante notar que o relato destas testemunhas são intrigantes, pois elas observaram que as pedras caiam do telhado de uma maneira inabitual, ou seja, não era possível explicar a sua queda através da lei da gravidade.
O pai também relatou que os movimentos de pedras ocorriam dentro da própria casa, ao ponto de quebrar um quadro de vidro pendurado na parede.  
Apesar destes fenômenos não terem nenhum efeito inteligente (talvez por falta de um investigador mais sapiente), eles possuem indícios fortes de intervenção espiritual, uma vez que não é possível explicá-los pelas leis conhecidas da ciência. Inclusive, estes tipos de fenômenos foram os primeiros a serem observados por Kardec, sendo catalogado por ele como de efeitos físicos. Atualmente, eles são comumente designados por Poltergeist, em alusão ao filme lançado em 1982 que abordava o tema4. Pela idoneidade da empresa responsável pela reportagem, pelos testemunhos e pelas próprias circunstâncias do caso, descarta-se a possibilidade de fraude, embuste ou charlatanismo.
No entanto, um cético investigando o caso vai concluir prematuramente que se trata de uma brincadeira de mau gosto de vizinhos, que jogaram as pedras no telhado sem serem vistos. Mas existem outros mais sofisticados, que usam a capa da ciência para reafirmar suas posições materialistas. Veja abaixo a declaração de uma psicóloga, membro da equipe de Assistência Social do município onde ocorreu o caso:
“Nós preferimos tratar como uma questão técnica e científica. Não vamos falar a respeito de fatos. De pedras voando, mas o que pode estar acontecendo no âmbito psíquico para que essas pessoas possam acreditar estarem vendo isso. E é a partir dessa teoria, dessa parte científica, que nós estamos voltando o tratamento pra essa família.”1
Eu gostaria de saber se a psicóloga que fez essa declaração aceitaria se hospedar por um dia na casa desta família para se certificar que todos os seus integrantes e as testemunhas, inclusive vizinhos e vários policiais, estão com algum transtorno psicótico. Se também fosse testemunha de tais fatos, talvez ela mesma concluísse que possui alguma patologia. Defensora veemente da ciência, só lhe resta procurar um médico para se tratar.
Transtornos psicóticos é uma patologia legitimamente catalogada pela ciência e não estou aqui para derrubá-la. No entanto, neste caso, trata-se de uma tentativa frustrada de adequar o fenômeno a teoria materialista, ou seja, modela-se o fenômeno para que se atenda a teoria que se deseja defender. Pesquisadores que procedem desta maneira estão apenas preocupados com seus sistemas mirabolantes, e são incapazes de admitir seus erros, pois fere seu orgulho. Se apenas um único membro da família estivesse ouvindo tais pancadas e não houvesse nenhuma evidência material do fenômeno, concordo que essa possibilidade não poderia ser descartada. O que se vê é justamente o contrário, assim, esse tipo de fenômeno está fora do escopo da psicologia e psiquiatria. Cabe, portanto, apenas ao Espiritismo estudá-lo.
Se a referida psicóloga está preocupada em dar uma explicação técnica e científica para o caso, algo que só a ciência da matéria possui tais prerrogativas, o que aparenta ser sua opinião, gostaria de dizer a ela que existe uma teoria que atende satisfatoriamente a esse tipo de fenômeno. Ela segue resumida abaixo:
Mulheres e homens são constituídos de Espírito, perispírito e corpo  
A consciência humana não reside no cérebro, ela é preexistente ao nascimento do corpo e sobrevivente a sua morte. Somos seres milenares e imortais criados simples e ignorantes por um Ser supremo, arquiteto de tudo que existe, seja material ou não material, e pelas leis que regem o Universo, temos como meta a perfeição. Para alcançar tal patamar, faz-se necessário o nosso contato com a matéria, pois nos permite experiências que nos forçam ao progresso. Os seres inteligentes da criação, que são os Espíritos, possuem uma natureza totalmente diferente da matéria que conhecemos, mas são revestidos por um corpo semimaterial que lhes permite manipular a matéria propriamente dita. Essa manipulação pode ocorrer pelo mergulho do Espírito à matéria animando um corpo humano desde o seu nascimento até a morte, ou pode, sob determinadas circunstâncias, pôr-se em comunicação com os Espíritos que estão temporariamente presos a um corpo material. Assim, homens e mulheres são, portanto, formado de três coisas distintas2: Espírito, ser inteligente, dotado de senso moral que dá vida a matéria; corpo, instrumento pelo qual o Espírito atua na matéria e; perispírito, laço que prende o Espírito à matéria. A morte destrói apenas o corpo, o Espírito prevalece com seu perispírito. A comunicação entre os Espíritos e nós pode ocorrer de diversas formas, pela manipulação de objetos, como no caso acima referido, ou pela atuação no próprio corpo daquele quem possibilita tal comunicação, que é chamado de médium. A interação entre os períspiritos do médium e do Espírito que deseja se comunicar é que permite que o fenômeno ocorra. Tem-se, portanto, no conhecimento do corpo semimaterial, a chave3 de todos esses fenômenos.
Achamos oportuno antecipar a teoria espírita para dar uma resposta a visão materialista sobre fenômenos espíritas. No entanto, não é intenção neste artigo se prolongar sobre ela, mas que o querido leitor entenda que a ciência espírita possui uma densa teoria lógica e racional, e não fica a desejar em relação a outras pertencentes às ciências materiais.
Por fim, para finalizar o escopo da ciência espírita, Kardec sabia também que para observar esses fenômenos de maneira séria e consistente, deveria se afastar das exibições extravagantes que se faziam para o público de sua época nos salões de Paris. Era necessário o recolhimento, perseverança, abnegação e comunhão de ideais das pessoas envolvidas.
Por João Viegas
Referências
2)   KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução. Item VI.
3)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, ítem 54, Da Ação dos Espíritos sobre a Matéria, Capítulo I – Dissertações Espíritas, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.

4)   http://www.imdb.com/title/tt0084516/

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Espiritismo é Ciência? Parte II

Objeto de estudo: Espírito
A chama é uma analogia para entendermos qual é a forma do Espírito
De acordo com a definição de Espiritismo, enunciada por Kardec em sua obra “O Que é o Espiritismo?”, e declarada em artigo anterior, é fácil concluir que o(s) Espírito(s) são(é) o(s) objeto(s) de estudo da ciência espírita. Por sua vez os Espíritos “...são seres inteligentes da criação. Povoam o Universo, fora do mundo material.1, conforme questão nº 76 de “O Livro dos Espíritos”. A natureza dos Espíritos difere de tudo aquilo que se conhece por matéria, sendo normalmente imperceptíveis aos nossos sentidos e insensíveis aos nossos instrumentos de observação. Mas sob condições especiais, conseguem atuar sobre a matéria e influenciar mulheres e homens. Os fenômenos provocados pelos Espíritos demonstram de maneira patente a intervenção de uma inteligência que é independente, livre e possui vontade própria. Assim, através dos fenômenos espíritas é perfeitamente possível estabelecer comunicação com eles. Em virtude da sua natureza, os Espíritos habitam o mundo espiritual, que apesar de independente, exerce incessante influência sobre o mundo material.
A velocidade e trajetória das estrelas são
 usadas para atestar a existência da matéria escura 
Admitir que o objeto de estudo de uma ciência possui uma natureza não material é um prato cheio para os céticos de plantão. Pois se os Espíritos não são materiais, como podemos provar a sua existência? Qual será o instrumento que devemos inventar para detectá-los? Como alguém pode afirmar que já os viu, se eles não são materiais? Será que isso não pode ser fruto de uma imaginação fértil ou alucinação? Esses são alguns exemplos de ataques que o Espiritismo pode sofrer. Mas os mesmos céticos que levantam esses questionamentos esquecem ou ignoram que muito dos resultados que a própria ciência chegou foram realizados de maneira indireta: como foi que Thomson2 descobriu que a eletricidade é ponderável, ou seja, que possui massa? Foi colocando um punhado de elétrons numa balança de precisão para medi-los? O que Rutherford2 fez para descobrir que o átomo é formado de um núcleo envolvido por uma nuvem de elétrons? Foi pondo um átomo num microscópio para observá-lo? O que dizer da descoberta da matéria escura3? Será que os cientistas resolveram iluminar uma parte do Universo para conseguir enxergá-la? Não, evidentemente as coisas não se procederam assim. Muitos dos resultados da ciência foram obtidos pelos efeitos produzidos pelos objetos que se desejava estudar. Assim, a existência da massa escura pôde ser atestada pelas forças gravitacionais que ela produz, uma vez que a matéria observável não é capaz de explicar as forças existentes no Universo. Através das forças elétricas de atração e repulsão entre prótons e elétrons foi possível admitir as existências dessas partículas e construir o modelo atômico que conhecemos hoje. O mesmo sucedeu com relação a existência dos Espíritos. Foram os efeitos que eles produziram na matéria que possibilitaram remontar suas causas.
O celular utiliza-se das ondas eletromagnéticas
O argumento exposto acima não resolve o problema da não materialidade do Espírito. Mas podemos prosseguir com novas comparações: O que há de materialidade no conceito de energia? O que há de materialidade no conceito de ondas eletromagnéticas?8 Você só consegue usar seu celular, smartphone, iphone, ipad etc... para fazer uma ligação, mandar uma mensagem ou acessar a internet, porque existe uma densa teoria produzida pela ciência, principalmente ao longo dos sécs. XIX e XX, que permitiu que tecnologias fossem desenvolvidas para que grandezas físicas não materiais como as ondas eletromagnéticas pudessem atuar sobre a matéria. E isso não é exatamente o que acontece durante as manifestações espíritas? Como se pode ver, o argumento cético da não materialidade do Espírito não se sustenta. A não ser que os próprios céticos comecem a renegar a ciência da matéria. 
Em virtude da natureza do Espírito e pela impossibilidade do homem poder reproduzir e controlar os fenômenos a sua vontade, Kardec conseguiu enxergar que estava diante de uma ruptura dos conceitos usuais estabelecidos pela ciência de sua época. Segue abaixo um dos seus argumentos mais brilhantes acerca deste tema:
“As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem. A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.”4
Uma química manipulando produtos em laboratório
Vamos dar alguns exemplos para compreender o posicionamento de Kardec: quando um químico quer produzir hidrogênio, ele sabe que precisa realizar uma eletrólise5. A eletrólise consiste basicamente num equipamento composto de dois eletrodos metálicos imersos numa solução aquosa de algum ácido, pelos quais passa uma corrente elétrica. A corrente é capaz de quebrar as moléculas da água de tal forma que o hidrogênio seja liberado em forma gasosa em um dos eletrodos. A eletrólise é um recurso utilizado no lançamento de sondas meteorológicas, pois o balão que leva a sonda é preenchido com hidrogênio, que é mais leve que o ar9. Quando um físico deseja aquecer a água, ele monta um circuito elétrico6 adequado com resistências potentes, imersas na água e ligadas a uma fonte de energia. Assim, é possível elevar a temperatura da água e até controlá-la. Exemplo deste recurso é o chuveiro elétrico. Por fim, quando o biólogo deseja observar as fases da divisão celular7, faz-se necessário o uso de um microscópio e a preparação de uma lâmina com material orgânico.
Todos os processos descritos acima podem ser reproduzidos e controlados pelo homem a qualquer tempo, desde que tenha as condições necessárias para isso, além desses experimentos, como tantos outros, terem como foco o estudo das propriedades da matéria. O que Kardec quis dizer foi que essas premissas estabelecidas pela ciência de sua época não serviam para investigar os fenômenos espíritas, e, portanto, ela era incapaz de compreendê-los. Era necessário, conforme suas próprias palavras, um novo ponto de partida. 
Por João Viegas
 Referências
1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira; Origem e natureza dos Espíritos; Cap I - Dos Espíritos Introdução, Parte Segunda – Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos.
2) MAHAN, Bruce H.. Química um Curso Universitário. Coordenação da Tradução de Ernesto Giesbrecht. 2ª ed. revisada: São Paulo. Editora Edgard Blücher LTDA; Estrutura Eletrônica dos átomos. Cap 10.
4) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução. Item VII.
5) MAHAN, Bruce H.. Química um Curso Universitário. Coordenação da Tradução de Ernesto Giesbrecht. 2ª ed. revisada: São Paulo. Editora Edgard Blücher LTDA; Reações de Óxido-Redução. Cap 7.
6) RAMALHO JÚNIOR, Francisco. Os Fundamentos de Física 3. 6ª ed. São Paulo: Editora Modena LTDA, Associação de Resistores, cap 7.
7) LOPES, Sônia. Bio: volume único. 1ª ed. São Paulo, 2004. Editora Saraiva. Cap. 8, As divisões celulares.
8) RAMALHO JÚNIOR, Francisco. Os Fundamentos de Física 3. 6ª ed. São Paulo: Editora Modena LTDA, Radiação Eletromagnética, cap 17